Grande parte dos escritórios de advocacia brasileiros nasceu em torno de um nome. O fundador construiu reputação ao longo de décadas, através de casos marcantes, relacionamentos pessoais e uma trajetória que o mercado aprendeu a reconhecer e confiar. Esse tipo de posicionamento funciona bem enquanto o fundador está ativo, presente e visível. O desafio começa quando essa geração começa a passar a liderança adiante.
O problema raramente é a competência da nova geração. Filhos, sócios mais jovens ou sucessores escolhidos costumam estar tecnicamente preparados para assumir a gestão do escritório. O que costuma faltar é uma transição equivalente na forma como o mercado reconhece essa liderança. A reputação que sustentou o escritório por anos estava depositada em uma pessoa específica, e essa reputação não se transfere automaticamente só porque um cargo mudou de mãos.
Isso cria um período delicado, em que o escritório ainda depende do nome fundador para ser reconhecido, enquanto tenta construir espaço de autoridade para quem está assumindo a condução. Clientes antigos continuam associando o escritório à geração anterior. Novos clientes, quando chegam, muitas vezes não sabem exatamente quem hoje realmente decide e responde pelas causas mais importantes.
A transição bem-sucedida exige um trabalho deliberado de posicionamento, que raramente acontece de forma espontânea. É preciso apresentar a nova liderança de forma consistente, mostrando trajetória própria e não apenas proximidade com quem fundou o escritório. Ao mesmo tempo, é preciso preservar a reputação já conquistada, para que a transição pareça continuidade natural, e não ruptura com o que veio antes.
Escritórios que conduzem essa mudança com intenção estratégica costumam contar a própria história de um jeito diferente. Deixam de centralizar tudo em uma única figura fundadora e passam a comunicar valores, metodologia e cultura que sustentam o escritório para além de qualquer nome específico. Isso não apaga a importância de quem fundou. Reforça que o que foi construído tem solidez suficiente para continuar existindo, mesmo quando a liderança muda.
O maior risco, nesses casos, não é a nova geração ser menos capaz que a anterior. É o mercado não perceber, a tempo, que ela já está no comando.